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2020-10-16 07:59:00

O Brasil tem jeito?

“Se quisessem resolver, resolveriam, mas o fato é que ficamos discutindo coisas inócuas. A discussão sobre se o Andrezinho do Rap deveria ser solto ou não dura mais que uma semana, mas, os assuntos importantes do Brasil não estão sendo discutidos. Esta semana, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia disse que reforma administrativa é só no ano que vem. Isso quer dizer que estamos atrasando as medidas importantes para o País e assim, menos credibilidade teremos no exterior.” Disse Ênio Fernandes

Em entrevista exclusiva ao Jornal O Espaço, Ênio Jaime Fernandes, Engenheiro Agrônomo, consultor de mercado Milho e Soja, Professor Executivo FGV. Dirigente Classista e Empresário Rural, fala sobre a economia brasileira e as decisões políticas que os governantes precisam tomar para o País voltar a crescer


   O Espaço – A relação da crise no abastecimento e ainda a alta de preços dos produtos alimentícios está relacionada ao aumento das exportações ou mesmo às dificuldades de abastecimento?
   Ênio Fernandes – Na verdade, é um pouco de cada. Vejam bem! Soja, produzimos muito bem, mas exportamos bem e o consumo interno também está muito forte. Se você pegar o mercado de carne, vai perceber que também exportamos bem, e o consumo externo está nos surpreendendo. Agora, no final desse último trimestre e quadrimestre do ano, o consumo de carnes caiu um pouco. Com relação aos demais insumos como arroz e feijão, o consumo interno surpreendeu as famílias, diante da crise.
   Acumulação de alimentos; nós compramos mais alimentos do que estávamos acostumados, com isso, tivemos alta de preços nos consumos, da área de alimentação.
   Temos outros insumos que subiram bastante, como é o caso dos materiais de construção e carros. Por quê? As empresas, com a pandemia, fecharam suas portas, então, a cadeia produtiva foi interrompida; agora esta cadeia produtiva está voltando e ela precisa abastecer o estoque do lojista mais a demanda da população e, estamos em um hiato de tempo, que só no final do ano deverá se acalmar.

   O Espaço – A inflação está mais alta para os mais pobres e eles estão surpreendidos com o preço da sua cesta básica?
   Ênio Fernandes – Isso é verdade! Aqueles que ganham um ou dois salários mínimos, o kit alimentação e transporte pesam mais na inflação para essas pessoas; para quem ganha dez salários mínimos, custa pouco. Agora, o que mais subiu foram esses itens básicos da alimentação, de novo. A construção civil também subiu, porque paramos uma cadeia produtiva. Precisamos reaquecer essa cadeia produtiva, reconstruindo estoques e toda a demanda que estava paralisada com a pandemia. Então, para as classes mais baixas, a inflação é maior.

   O Espaço – Há comentários que no futuro teremos um bolsão com maiores índices de pobreza?
   Ênio Fernandes – Precisamos entender que o mundo inteiro está mais pobre. Todo mundo está mais pobre. Quando as coisas sobem de preço e o desemprego cresce, e isso está acontecendo aqui, na Europa, nos Estados Unidos, em todas as partes do mundo, então, você tem um resultado do país para baixo, O Brasil vai decrescer 5 por cento; a Inglaterra vai decrescer 12 por cento; os Estados Unidos vão decrescer 4 por cento. Essa pandemia veio para empobrecer o mundo, inclusive, esse é um processo que já estávamos esperando passar. 

   O Espaço – Há esperança de diminuição de preços pelo menos na parte de alimentação?
   Ênio Fernandes – Boa pergunta! Vamos lá! O que precisamos fazer para baixar essa inflação? Primeiro fato é o dólar cair, mas para o dólar cair eu não posso subir os juros, ele tem que cair pela confiança do mercado no Brasil. Quer dizer, o Brasil vai pagar suas contas. Se isso acontecer, ou seja, se o credor tem certeza que o devedor vai pagar suas contas, ele vem e investe aqui, ele traz dinheiro de fora para cá; aí, o dólar cai e a inflação cede. Por exemplo: se fizermos as mudanças que estamos dizendo que vamos fazer, ou seja, a reforma administrativa e reforma tributária, caso essas reformas ocorram, as contas públicas do Brasil, no curto espaço de tempo estão ficando muito ruins, mas a longo prazo elas vão sinalizar positivamente. O investidor, para ganhar nessa alta de melhora de cenário, ele vem e traz dinheiro para cá, ou para aplicar na bolsa, ou para aplicar em títulos do governo ou mesmo para investir, apenas. Agora, se não fizermos isso, poderemos nos transformar em uma Argentina, que está vivendo num colapso; ninguém está investindo no país. Então, o dólar está ficando muito alto; o cidadão argentino está ficando mais pobre todos os dias, porque está comprando menos a cada dia. A mesma coisa está acontecendo na Venezuela.
   Quando você empresta dinheiro para alguém, você quer saber se vai ou não receber. Isso quer dizer que se dermos credibilidade ao mercado, o mercado vem investir aqui, se não aprovarmos as reformas, ninguém virá investir aqui. Então, precisamos aprovar as reformas, o mercado precisa confiar no País, para aí os preços caírem.

   O Espaço – É verdade que a Argentina está vivendo um caos e que a população está passando fome?
   Ênio Fernandes – No mundo inteiro tem gente passando fome. No Brasil, na Argentina e até mesmo nos Estados Unidos tem gente passando fome. O que nos entristece é que a Argentina é um país muito parecido com o Brasil. Ela tem uma potência agrícola muito forte, tem uma logística muito melhor que a nossa e está bem posicionada, agora, decisões erradas trazem consequências desastrosas. Cada um de nós somos decisões que tomamos no passado, então, o Brasil precisa tomar decisões acertadas para que no futuro esteja melhor posicionado. A Argentina tomou decisões erradas.

   O Espaço – Você é contra a interferência do governo no câmbio?
   Ênio Fernandes – Toda vez que você manipula o câmbio, você erra. Nós já fizemos isso com o Sarney, com o Fernando Collor e com o Fernando Henrique e deu tudo errado. Toda vez que você tenta manipular uma moeda, o mercado tira dinheiro daqui. Não é possível comprar toda a moeda para fazer o dinheiro ficar baixo. Você pode pensar em taxar todos os dólares que saírem do País, só, que ao você fazer isso, você evita de entrar novos dólares no país. Então, isso é meio injusto.       Não é que sou contra, eu acho que o governo precisa equilibrar essa relação, mas, com atitudes corretas. O final da economia é o seguinte, não adianta eu mentir para o povo ou para o mercado, eu tenho que fazer o que é certo.

   O Espaço – Por que Rio Verde sofreu menos economicamente, com a pandemia do Covid?
   Ênio Fernandes – Bem... Rio Verde é um presente de Deus. Primeiramente, ela é uma potência do agro, nós exportamos para outros estados brasileiros e também para o mundo inteiro. Então, levamos o produto e trazemos o dinheiro, assim, o agro ajudou muito; segundo, nosso município é também uma potência na área educacional, temos várias faculdades aqui e muita gente mora aqui, para estudar. Os pais desses alunos mandam dinheiro para cá; e, a última questão é que Rio Verde está virando um polo de medicina. Aqui tem inúmeras clínicas e pessoal especializado em cirurgias simples até as  mais complexas e ainda ás cirurgias estéticas, que não são essenciais, para há muitas pessoas que investem.
   Então, quando eu pego uma área de emprego forte, área de boa educação e uma área de medicina e junto com o agronegócio, vamos encontrar uma pujança muito grande e, o principal, que não podemos esquecer, somos um grande centro atacadista de distribuição, porque pessoas de outras cidades vêm fazer suas compras aqui, porque compram mais baratos do que nas suas cidades de origem. Isso tudo faz com que o dinheiro de lá, venha para cá, assim, você irriga a economia local.     Rio Verde vai sofrer menos, por causa dessas características.

   O Espaço – Informação de hoje, é que o Brasil atingiu seu menos índice de vendas para os Estados Unidos. Por que isso está acontecendo?
   Ênio Fernandes – Isso acontece porque o mercado está privilegiando outros parceiros. Não é que os Estados Unidos diminuíram tanto a compra no Brasil, é que a China cresceu demais, a Ásia cresceu demais, o Oriente Médio cresceu demais, então, relativamente, estamos vendendo menos para os Estados Unidos. Mas quando você pega os números da balança comercial, em dólares ano, estamos muito próximos. Outra coisa, a economia chinesa deve crescer quase 3 por cento; esperava-se um por cento; os mais pessimistas falavam que ela iria crescer 1,9 por cento. No próximo ano, a China vai crescer 8 por cento; compras que vão efetivar no próximo ano já estão acontecendo agora. Elas vão ser embarcadas no próximo ano, mas estão sendo realizadas agora. O crescimento da Ásia, principalmente o da China, vai ser maior do que o dos Estados Unidos. Os Estados Unidos estão com problemas para crescer agora, com altas taxas de desemprego, então, como a Ásia vai crescer mais, relativamente, o Brasil vai vender mais para a Ásia do que para os Estados Unidos.

   O Espaço – O governo tentou intervir no aumento do álcool, mas não adiantou. O preço está subindo quase que diariamente. Como você explica a situação do álcool?
   Ênio Fernandes – Na verdade o petróleo está estabilizado em 40 dólares o barril. Se observarmos bem, é o dólar! Estamos com o dólar a 5,60 reais. Esse dólar, há pouco tempo era 4,50 reais. Quando o dólar sobre, todos os produtos que são precificados em dólar, sobem. Isso é um exemplo do que está acontecendo com o etanol. Você pode perguntar o que tem a ver o álcool com a gasolina, por exemplo. O fato é que a Petrobras vende o produto aqui no mercado ao mesmo preço que se fosse exportar, assim, quando sobre lá fora, ela sobe aqui dentro do País, não é uma relação direta de oferta e demanda, a relação é que só temos um vendedor, nós temos uma empresa estatal que controla mais de 50 por cento no Brasil, é uma parceria público privada, que também tem investidores, mas aconteceu que ela definiu que iria vender de acordo com o preço internacional, assim, quando o preço do dólar sobe, ela vende mais caro aqui no País, e aí, quem ganha salários não teve aumento, assim, a opção dele é consumir menos petróleo. Ao consumir menos petróleo, o preço cai e nesse caso, há uma tendência ao equilíbrio. Agora, isso, vamos enxergar no final do ano.
   Outra coisa, tem grandes companhias de combustíveis que seguraram o etanol para vender na entressafra, só que a venda de Ciclo OTTO não está acontecendo. Por isso, vamos ter uma estabilidade no preço do etanol, e só sobe se o álcool continuar subindo.

   O Espaço – Não há como o governo mudar essa política, pelo menos no transporte? Não há outro exemplo a seguir?
   Ênio Fernandes – Não há! Isso é injusto, uma empresa ganhar e o restante da população perder. Não é justo a população brasileira passar fome, já que produzimos o alimento. Qual é o caminho? É fazer as coisas corretas. Estamos com um presente de Deus, agora. De dois em dois anos você pode escolher os seus representantes e aqueles que vêm com promessa fácil, não vão cumprir o prometido, pois nada é fácil, o mundo real não é assim. O mundo real é de estudo, sacrifício e trabalho. Então, como eu faço para mudar esse mundo tão drástico? Como que não vãos aprovar essas reformas? Como é que temos um fundo eleitoral de 2 trilhões de reais em um País que está passando necessidade? Isso tudo é escolha que as lideranças políticas estão tomando.
   Olha! Se quisessem resolver, resolveriam, mas o fato é que ficamos discutindo coisas inócuas. A discussão sobre se o Andrezinho do Rap dura mais que uma semana, mas, os assuntos importantes do Brasil não estão sendo discutidos. Esta semana, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia disse que reforma administrativa é só no ano que vem. Isso quer dizer que estamos atrasando as medidas importantes para o País e assim, menos credibilidade teremos no exterior. O que precisamos fazer é destravar o Brasil; nosso País tem muito potencial.