2020-03-01 08:00:00
“O Governo trabalha, mas ainda não atende os produtores rurais”
"Acho que tem momentos que é preciso se conter e contar até 10, antes de falar. Percebo que estão trabalhando, mas precisam tomar cuidado com certas coisas. Trata-se de autoridades máximas no País, que, portanto, precisam ter maior equilíbrio junto à sociedade, que está esperançosa neste diálogo, para que o País volte a crescer e gerar emprego e renda. Não há necessidade de trocarem acusações; o que precisa haver é muito diálogo." Disse Antônio Chavaglia, presidente da COMIGO.
Em entrevista exclusiva ao Jornal O Espaço, o empresário, produtor rural e presidente da COMIGO, Antônio Chavaglia, fala sobre a Tecnoshow, as tecnologias, exportação de produtos brasileiros e a instalação da plataforma multimodal no município
O Espaço – Qual é a expectativa para a Tecnoshow 2020?
Antônio Chavaglia – A Tecnoshow, todo ano, se moderniza em todos os sentidos. Por exemplo, os expositores estão aumentando a cada ano; em 2019 foram 580 e, para 2020, já passam de 600, isso, porque a cada dia, empresas novas, grandes e pequenas estão vindo para expor seus produtos, inclusive, aumentamos a nossa área e fizemos 900 metros quadrados de asfalto, com meios-fios, e também colocamos energia; para este ano, teremos 7 bancos que vão financiar os produtores rurais, enquanto no ano passado, foram apenas 4. Isso é bom, embora, não concordamos ainda com os juros que estão muito alto, de acordo com a inflação e a taxa selic. Temos uma taxa Selic de 4,25% ao ano e o produtor rural está pagando 9, isso nunca esteve nesse patamar. Isso nunca existiu. Antes, tínhamos uma taxa selic de 14% ano ano e pagávamos 7%
O Espaço – O Governo está se vangloriando desse feito, mas então, os juros não caíram e o produtor está perdendo com isso?
Antônio Chavaglia – Sim! Os juros para o produtor rural não caíram. São depósitos a vista que o Banco Central libera para serem aplicados na agricultura; dinheiro que ele pega a 4,5% ao ano, e tem 100% de resultado. E digo novamente, que nunca vi acontecer isso na área agrícola brasileira, um juro tão alto e incompatível com a taxa selic. O Banco Central iria ganhar 0%, agora, estão ganhando entre 8 e 9%, em cima do produtor, e por isso, existe uma distorção muito grande.
Temos aí, a vontade do produtor em investir, mas, depende do equilíbrio financeiro, de modo que ele dê conta de pagar. Essa é uma preocupação que paira sobre todo o agronegócio brasileiro.
Então, estaremos na feira trazendo novidades; os empresários trazendo novas tecnologias; haverá muitas palestras tanto para a pecuária, quanto para a agricultura e para as famílias, sobre os diversos modos de se trabalhar em família.
O Espaço – O fato é que o produtor rural de hoje, tem que se manter informado e acompanhar tudo que orbita no agronegócio, inclusive, acompanhando as palestras?
Antônio Chavaglia – Claro! Tem que acompanhar tudo, porque todo ano, todo dia surge novas tecnologias, novos produtos são lançados. Muitas vezes pode-se usar um produto que está no mercado há 10 ou mais anos e já não está sentindo os mesmos efeitos de antes.
Na Feira, apresentam esses lançamentos; aumentamos o estacionamento em 50 mil metros quadrados, espaço para mais 4 mil veículos; vamos ter mais um restaurante, pois cerca de 200 pessoas são atendidas simultaneamente; instalamos mais um transformador de 150 Kwa; fizemos investimentos em internet e cabos de fibra ótica, por nossa conta, assim, o sinal vai melhorar e muito. O valor dos investimentos foi de mais de 1,4 milhões.
Vai ser apresentadas mais de 3 mil máquinas; mais de mil animais; os empregos gerados direto e indiretamente vão ser para mais de 8 mil pessoas; palestras nos auditórios, pequenos auditórios e presença nos stands, ao todo, somarão mais de 150 palestras; teremos um pavilhão internacional, que ainda está faltando confirmação da vinda dos países, mas, será entre 10 e 20 embaixadas, mesmo com a grande preocupação com relação ao coronavírus; vai ter também a transferência simbólica do gabinete do Governador de Goiás para a Tecnoshow; inclusive, o Governador está preparando o lançamento da Feira, também em Goiânia, para 17 de março, mas, ainda não confirmou o horário.
Então, tem coisas muito importantes para fazer, sendo que a Cooperativa sempre trabalhou em cima disso, para trazer novas tecnologias e cultivares. Os visitantes poderão ver aqui, todas as tecnologias de ponta do momento, genética de bovinos, de novas cultivares de soja e milho, entre outras; as máquinas e os engenheiros das fábricas estarão presente para explicar para o produtor o histórico dos lançamentos, para responder para o produtor tudo que deu certo e que não deu, além de todas as perguntas que tiverem.
Tudo isso é muito importante. Estamos preocupados porque os preços das máquinas estão subindo muito além da inflação.
O Espaço – O aumento de preços é em virtude da alta do dólar? Qual é a avaliação do senhor sobre este ponto?
Antônio Chavaglia – A questão do dólar é muito complexa; o dólar livre, tem essas variações; ano passado saiu muitos dólares do Brasil, principalmente, pela insegurança jurídica, que ainda é muito grande, então, com juros baixos, investidores vão para países onde existe mais segurança para os negócios, mesmo que a renda seja menor. Existem todas essas variáveis, por isso, nos últimos anos, os investimentos internacionais caíram no Brasil e, esperamos que retome isso, já que o risco do País caiu muito, de pouco mais de 500 para menos de 100, atualmente, e, a credibilidade no Brasil, aumentou, porém, essa questão jurídica e parlamentar ainda é muito preocupante.
O Espaço – Falando dos parlamentares, o fato de o presidente Bolsonaro e o General Heleno convocarem um movimento, não dá insegurança para a economia?
Antônio Chavaglia – De alguma maneira, sim. Acho que tem momentos que é preciso se conter e contar até 10, antes de falar. Percebo que estão trabalhando, mas precisam tomar cuidado com certas coisas. Trata-se de autoridades máximas no País, que, portanto, precisam ter maior equilíbrio junto à sociedade, que está esperançosa neste diálogo, para que o País volte a crescer e gerar emprego e renda. Não há necessidade de trocarem acusações; o que precisa haver é muito diálogo.
Temos bons deputados, mas ainda tem aqueles que não pensam no Brasil e apenas em si mesmos. Então, não podemos ficar travados por causa dos poderes legislativo, executivo e judiciário. Eu acho que precisa haver uma harmonia em todos os sentidos,
O Espaço – Os produtores estão vendo grãos e carnes a bons preços, em dólar. Mas e os insumos que ele compra?
Antônio Chavaglia – Mais de 60 ou 70 por cento é importado e, muitas vezes as empresas brasileiras calculam em dólar, para vender. Então, as dívidas dos produtores vão subindo, a medida eu o dólar vai subindo, também. E tem mais, algumas matérias primas também subiram de preço, em dólar. Alguns problemas pelo quais passamos, podem trazer dificuldades para importarmos alguns produtos; vigilância com relação à entrada de pessoas no País, em todos os sentidos, pois já temos um caso confirmado em Goiás e a vacina para essa doença precisa ser descoberta o quanto antes.
O Espaço – Vamos falar da carne. A comunidade levou um susto grande, por causa do aumento do preço da carne. O preço não baixou. O senhor acredita que ela pode baixar ou ainda teremos outras surpresas?
Antônio Chavaglia – Podemos ter surpresas se tivermos mais problemas com doenças no Brasil, porque aí, teremos barreiras em diversos países; se o consumo mundial cair, por questões de transporte ou entrada nesses países, os problemas serão sérios. A carne voltou ao preço normal que é em outros países, a bovina, é 65 dólares por arroba no EUA; 60 dólares na Austrália; e, no Brasil, o preço é quarenta e poucos dólares, então, está muito abaixo do que em outros países, assim, temos condições de exportar para muitos países e sermos competitivos.
No caso da soja, que é a mesma situação de outros produtos, como frutas, que também tem controle rigoroso para continuar exportando, isso, porque vamos continuar tendo barreiras, pois os produtores desses países têm subsídios, e a pressão dos governos são grandes, para que barrem esses produtos de outros países que estão entrando lá, na condição de concorrentes, competindo com eles.
O Espaço – O senhor acredita que o governo vai dar algum subsídio no Brasil e proteger mais o produtor?
Antônio Chavaglia – Não! Eu acho que ele precisa ter... o produtor paga o seguro rural, porque volta e meia tem algum desastre no País, que tem dimensões continentais. Temos problemas no Rio Grande do Sul, agora. Outro momento temos na Bahia... no Maranhão... aqui na nossa região, tivemos perca no ano passado, por causa do sol. A única parte que temos, é o seguro rural, que é necessário. Seria preciso ter ainda, o seguro de renda, que não temos. São coisas que o Governo precisava trabalhar para o agronegócio, porque ele é representativo na economia nacional.
No passado, já pagou subsídio de custo, mas hoje, não paga mais. Temos juros muito acima da inflação, muito acima da taxa selic, portanto, acho que deveria ter um equilíbrio mais, além de não querer ganhar tanto em cima do produtor.
O Espaço – A Rumo Logística está vindo para Rio Verde, com a plataforma multimodal. Na opinião do senhor, o que vai mudar para o município e a agricultura?
Antônio Chavaglia – Como ela comprou somente a linha férrea; ela não comprou a estação multimodal, por 30 anos, a concessão; ela não comprou as plataformas, da Valec, assim, ela está construindo plataformas, onde é conveniente para ela; onde possa ser melhor. Ela está construindo uma plataforma em São Simão, que vai ficar pronta até o final de 2020, e a daqui, até julho do próximo ano.
Isso saindo, teremos fretes mais estabilizados, possibilidade de fazermos contratos mais a longo prazo, porque aí, teremos preços de fretes, mais garantidos, sem aquelas variações bruscas. Isso, tanto para as saídas quanto para as entradas de mercadorias, trazendo containers para supermercados atacadistas. Caminhões vão ter problema para encontrar fretes? Claro que não, a plataforma vai poder atender cerca de 1.200 caminhões por dia.
Transcrição: Divino Ramos







