Em entrevista exclusiva ao Jornal O Espaço, Maurício Faganelo, Bacharel em Economia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Pós-Graduado em Marketing pela Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo, foi Professor nas disciplinas de Desenvolvimento Sócio Econômico, Macroeconomia e Economia na Universidade Nove de Julho - UNINOVE – SP, atualmente, professor no Instituto Federal Goiano - campus Rio Verde, ministrando as disciplinas de Economia, Mercado de Capitais, Economia Rural e Agrícola, Marketing e Comercialização no Agronegócio e Gestão de Negócios. Pesquisador nas áreas de Geografia Econômica, Macroeconomia, Marketing Comercialização no Agronegócio e Perfil do Consumidor das Classes C, D e E, É Delegado do CORECON-GO 18ª região (Conselho Regional de Economia de Goiás) para a cidade de Rio Verde. Delegado eleitor efetivo do CORECON-GO no Conselho Federal de Economia, representado o Estado de Goiás, fala sobre a economia brasileira em tempo de pandemia.
O Espaço – A que o senhor atribui o aumento exagerado de todos os produtos de consumo nos últimos meses?
Faganelo – Depois da pandemia temos dois fatores para isso: a questão do consumo, porque as pessoas estão vivendo mais dentro de casa, e acabam consumindo mais gêneros alimentícios. Por outro lado, com o nível de produção menor, porque tem menos pessoas trabalhando, os produtos de consumo aumentam de preços, principalmente, aqueles de bases industriais, ou seja, aqueles que dependem de tirar o produto do agronegócio, levar para uma agroindústria e transformar em enlatados, em embalados ou algo dessa natureza, aí, com menor pessoas para produzir, faltam produtos no mercado... outra coisa são os produtos que dependem do exterior, como no caso de insumos para as indústrias de embalagens, que aumentaram de preço, absurdamente. Temos como exemplo, o papelão, vidros, etc. O aumento desses itens faz com que os produtos aumentem de preço, também. Além disso ainda tem a demanda, pois quando se tem um aumento muito grande da demanda e em alguns casos não temos a oferta disponível, evidentemente, o preço do produto aumenta.
O IGPM é um dos indicadores de preço e, se formos considerar de novembro de 2019 para dezembro de 2020, houve mais de 25% de aumento, e aí, aumentam também os contratos, como os de alugueis. Desse modo, vemos um impacto muito grande nos preços da economia como um todo, puxado por essa inconsistência entre o desejo das pessoas comprarem e a disponibilidade dos produtos no mercado. Por isso os preços estão mais altos.
O Espaço – O preço do arroz, carne, óleo e os produtos da sesta básica vão estabilizar?
Faganelo – Eu não acredito que serão apenas o arroz e a carne, mas, esses produtos não vão estabilizar; no caso do arroz, já estamos tendo problemas desde o ano passado, por falta do produto no mercado, pois a produção estava muito cara e no mercado, o preço estava muito baixo. Por isso, chegaram a parar de produzir; houve uma queda de produção no sudoeste asiático, como na Malásia e Tailândia, que também são grandes produtores de arroz, fez com que isso caísse. Os insumos para a carne são muito caros; a soja aumentou de preço no mercado internacional; o milho também teve aumento por causa de uma demanda lá da China, que teve problemas com a gripe suína, que dizimou praticamente todo o rebanho do país. A China compra muito porque o país tem mais de 1,5 bilhão de pessoas e todos precisam alimentar, tanto, que praticamente 90% da soja brasileira é direcionada para a China. Isso tudo fez com que o produto brasileiro fosse demandado.
O preço do óleo de soja é um pouco diferente, na verdade, tem um fator a mais de diferença. Tem essa demanda da China, que acabei de citar, tem a questão do dólar que está muito desvalorizado e faz com que o nosso produto brasileiro fique muito mais barato no mercado internacional e, isso faz com que todo mundo venha comprar aqui.
Agora, se tem um problema no mercado de óleo, especificamente, tem um produto substituto, que é o mercado do óleo de palma, da Ásia, que é um substituto do óleo de soja. Como não está tendo estoque suficiente por lá, isso está impactando no mercado de soja, e aí, temos um outro problema, se esses preços vão estabilizar, na soja e no milho eu acho que não.
Quanto a soja, estamos tendo muita chuva aqui no centro-oeste e isso está atrasando a colheita, que ainda não está completa; quem está colhendo está pegando um nível de umidade muito alto e com isso a produtividade acaba sendo menor, então, esse atraso da soja acaba também atrasando o plantio do milho. Assim, teremos um impacto de preços mais altos nesses dois mercados, que são os insumos para carne e o preço do arroz. Então, não haverá estabilização nesses mercados; ainda teremos muitos problemas nesse ano, que acredito vai ser mais complexo e vamos ter que absorver isso.
O Espaço – O combustível vai continuar no gatilho do Dólar
Faganelo – O combustível, na verdade, não é gatilho do dólar; o gatilho do combustível está ligado ao preço do petróleo no mercado internacional. O preço do etanol é balizado pela safra e pelo preço do petróleo que vai produzir a gasolina. Então, se a gasolina valoriza no mercado internacional, o preço aqui também acaba ficando mais caro; é um impacto muito forte. Mas o Governo tem feito algum trabalho nesse sentido; houve esse desprendimento; sobre o dólar, é simplesmente um fato de conversão; por causa da nossa moeda não valer tanto, não conseguimos comprar no mercado internacional um produto com uma qualidade muito boa, com bons rendimentos, porque a produção de petróleo no Brasil demanda de muito refino e um custo muito grande para o uso em combustível, então, o custo do petróleo brasileiro é maior, por exemplo, do que o preço do combustível no mercado árabe, que é um petróleo que demanda um refino menor e acaba custando menos para a produção do combustível. Assim, as distribuidoras acabam absorvendo esse impacto e repassando para os postos de combustíveis. Particularmente, acho que ainda deveremos ter um repique um pouco alto, o governo tem feito algumas movimentações, trocando o comando da Petrobras, mas acho que os preços não vão cair, mas sim, estabilizar.
O Espaço – O aumento no preço dos alimentos tem a ver com a política econômica do Paulo Guedes?
Faganelo – Não! Ele apenas está tendo que lidar com uma questão de mercado, como qualquer economia ou qualquer economista que está à frente da economia de qualquer país. Ele está lidando com a situação. O que o Ministro Paulo Guedes pode fazer é contramedidas para equilibrar outros mercados que têm influência. Então, nesse primeiro semestre temos um aumento importante de preços contratados como por exemplo, água, energia, estudo, ensino... eu acho que o Paulo Guedes está tentando arrumar a casa na medida do possível. Ele acabou de mexer na taxa dos juros, para acompanhar a medida da inflação. A economia brasileira não caiu tanto por causa do auxílio emergencial, que apesar de ter sido tardio tanto no primeiro quanto no segundo momento. Acredito também que o desejo do Paulo Guedes é gastar o mínimo possível; no geral, acho que ele está fazendo um trabalho razoável; ele tem as limitações que o próprio Bolsonaro impõe para ele, por conta de um ambiente político e ele não conseguir implantar tudo que ele quer, tanto, que metade do time dele já saiu.
O Espaço – Deixar o dólar livre subindo e desvalorizar o real é uma boa política econômica?
Faganelo – Se você quiser expandir ainda mais a exportação, isso é muito bom para quem exporta, mas, é muito ruim para quem compra produtos internacionais. Isso é uma política econômica de expansão internacional. É claro que o Brasil precisa entregar e o agronegócio tem entregado divisas importantes para a economia brasileira; o agronegócio esse ano, não conseguiu salvar os negócios como em anos anteriores a pandemia, quando o agro realmente impulsionou, e esse dólar e real desvalorizados, influenciaram demais nas vendas de produtos comerciais para o exterior.
O problema é que agora estamos em um nível, em que desvalorizando o dólar, acima dos seis reais, eu acho que pode ser um tiro no pé. Desvalorizar demais a moeda brasileiro pode ser perigoso e pode nos levar à situação da Argentina. Eu entendo que o real, entre 4,5 e 5 dólares é um valor bem equilibrado e que garante ganhos para a exportação. Hoje, estamos desequilibrados mundialmente e o Brasil sendo visto de uma maneira muito negativa na comunidade internacional por conta da ineficiência do uso da máquina estatal para combater a pandemia em nível nacional.
O Espaço – Qual o conselho que o senhor tem para os empresários diante desta coisa mundial?
Faganelo – Eu acho que o empresário tem que pensar que o mundo mudou, e não é somente agora no período pós pandemia. Há cerca de 5 anos temos visto mudanças muito significativas no setor de vendas e compras no comportamento das pessoas; a questão do isolamento social nos impulsionou ainda mais para que tenhamos ideias inovadoras. Então, realizar a inovação no seu negócio demanda estudo e compreensão. Fazer negócio do mesmo jeito não vai funcionar.
Agora, estamos tendo avanços na vacinação e provavelmente até o próximo ano todos terão acesso irrestrito à vacinação e, quando a pandemia acabar, certamente, vai ocorrer um aumento na atividade comercial e industrial.